
O Padre João Pedro Ferreira Airosa nasceu a 20 de Dezembro de 1836 e faleceu em 25 de Setembro de 1931. Ordenado presbítero em 24 de Setembro de 1859, foi pároco e capelão do Carmo, onde se entregou devotadamente à formação Cristã do seu povo e de todos quantos, atraídos pelo seu zelo apostólico, procuravam escutar a palavra de Deus e modelar por elas as suas vidas. Entre as várias iniciativas levadas a cabo pelo Padre João Pedro Airosa, merece especial destaque a realização de uma grande missão, em Braga, na Quaresma de 1869, que teve como pregadores os padres jesuítas Carlos Rademaker e João Rebelo Cardoso de Menezes (mais tarde bispo de Lamego).
“As conferências e pregações duraram toda a Quaresma, nas Igrejas do Carmo e dos Congregados, em dias desencontrados” e “o fruto foi imenso”. Há registo de que as citadas conferências e pregações “foram muito concorridas por pessoas de todas as classes e dum resultado e fruto extraordinário, principalmente na classe alta e nos estudantes: com entusiasmo “afluíram à igreja ricos e pobres, grandes e pequenos e ainda os homens da ciência (...) houve conversões notáveis com carácter perseverantes”.
Entre as pessoas que queriam verdadeiramente transformar as suas vidas, encontravam-se mulheres com condutas desviantes que, principalmente durante a missão, procuraram o Padre Airosa pedindo-lhe ajuda para uma verdadeira conversão, que implicava necessariamente uma mudança de vida, em ambiente favorável.
É assim que surge a casa do retiro, também conhecida por casa d’Abrigo, que foi instalada inicialmente na Rua do Areal (1869), depois na casa da Armada (1871), posteriormente na casa do Avelar de Baixo (1874) e definitivamente no Edifício do convento da Conceição, em 14 de Maio de 1879. Os seus estatutos e o nome do Colégio da Regeneração remontam a 1874.
Por convite pessoal de Monsenhor Airosa a Teresa de Saldanha, fundadora das irmãs Dominicanas de santa Catarina de Sena, é confiado o Governo interno do colégio às irmãs dominicanas portuguesas em 12 de Abril de 1877, que têm exercido as funções do seu cargo com inexcedível perfeição, competência e abnegação até ao dia de hoje.
Segundo o Espirito de Monsenhor Airosa, as jovens acolhidas nesta instituição sempre receberam uma formação integral: cultural, religiosa, instrução, bordados, desenho industrial, tecelagem, costura, música,...
Apraz-nos registar que, em 30 de Agosto de 1894, o Colégio da Regeneração “abriu, para as raparigas da cidade, a escola de tecelagem. Apreciadíssima pelos monarcas, ministros, jornalistas e particulares disputou certames nacionais e estrangeiros, tendo obtido os maiores prémios” (Pinheiro Torres, Memória Histórica do Colégio da Regeneração de Braga, 1905).
Em 1969, data do primeiro centenário da Instituição, passou esta a ser designada por Instituto Monsenhor Airosa, em homenagem ao seu fundador.
Como sabiamente escreve o Senhor Doutor Costa Lopes, “a tarefa educativa e reeducativa do Instituto visava a formação integral das educandas , a qual devia passar além do mais, pela instrução e pelo trabalho, como escrevia Monsenhor Airosa” (...). “Note-se, nesta referência, o prioritário lugar concedido à instrução, a qual inclusive sob a forma de intensa e variada animação cultural, ainda hoje, é uma das características educacionais do Instituto, sem desprimor para as tão apreciadas actividades manuais lá desenvolvidas: tecelagem, costura, bordados, entre outras. (Costa Lopes, Cem anos de Bem-fazer, as Dominicanas Portuguesas no Instituto Monsenhor Airosa, 1978).
Na continuação desta primazia escolar na formação das educandas, apraz-nos registar um crescente empenhamento do Ministério da educação, que faculta às nossas jovens o ensino e aprendizagem ministrados nas escolas do estado, com professores destacados para o efeito, que asseguraram a leccionação do 1º, 2º e 3º ciclos, com abertura para o ensino recorrente, e outras formas de colaboração, tais como informática, educação física e natação. No próximo ano lectivo, o IMA procurará dispor de um currículo alternativo para o 2º ciclo contemplando as disciplinas curriculares de Artesanato/Bordados e Nutrição/Culinária.
Obrigada, Monsenhor Airosa, por ter sido fiel ao carisma de fundador de tão grande obra. As cerca de 4000 alunas que já passaram pelo IMA, ao longo destes 132 anos de existência e a sua reinserção social, bem como o elevado grau de cidadania com que muitas delas se tem distinguido, são o mais cabal testemunho de que valeu a pena ter dado a vida por toda esta juventude em risco.
Num artigo publicado no diário de Notícias em 1921, o escritor Antero de Figueiredo apresenta alguns traços caracterizadores da personalidade de Monsenhor Airosa: “ Desde a sua mocidade piedosa, o fundador passou uma vida na verdade religiosa e na beleza altruísta. Visionário do Bem, sapiente sacerdote, meditou afincadamente e assim, com a força das suas convicções e o exemplo de homem bom, justo, dedicadíssimo, estava habilitado para ajudar as alunas com conselhos paternais, alumiando-lhes as consciências com princípios morais, exercitando-as no culto externo, lançando-as na frequência dos sacramentos e depois absorvendo-as no trabalho alegre...”.
E falando da sua competência, amor ao trabalho e capacidade de iniciativa, continua o escritor, referindo-se ao Monsenhor Airosa: “Meteu-se a caminho da industrial França Lionesa, onde Jacquard era o rei da tecelagem”; “aí, substituindo a batina pela blusa estudou para aprender, praticou para ensinar” e “voltou tecelão”. Enaltecendo os vários saberes do padre Airosa e a capacidade de dar resposta a todas as situações, particularmente difíceis nos primeiros tempos do colégio, conclui o autor do citado artigo do Diário de Noticias: “ Ah, é que ele tinha uma Universidade no coração” (Convívio, n.º 47).
E nós somos discípulos deste Homem e deste Santo. É, pois, com muita Emoção que frequento os lugares onde Monsenhor Airosa viveu, trabalhou, ensinou, rezou, formou as suas educandas, conduziu-as a uma grande maturidade humana e espiritual. Que a sua vida e a sua obra sejam para cada um de nós um incentivo à confiança, ao trabalho, à criatividade, à humildade e ao serviço de quantos nos são confiados.
Celeste Vaz
(in Convívio, nº 52 – Outubro de 2001)
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